domingo, 20 de janeiro de 2013

Começo

Tal e qual um menino pequenino saltei as escadas do hospital, sem saber o que vinha a seguir. Não sabia. Aliás nunca soube, muito bem, o que esperar de ti. Percorri os labirintos daqueles corredores brancos, sem me saber orientar em quartos de hospital a cheirar a medicamentos que em vez de salvar, matam mais. Nunca soube e nunca percebi; como é que deixavas sempre que te levassem para ali. Tu não gostavas do cheiro do hospital, o que tu gostavas era do cheiro do mar. Nos dias de praia ficavas horas agarrada ao meu corpo, com a cabeça pousada no meu ombro a ver o azul do mar e dizer que este era o teu cheiro preferido. O toque entre mim e o paraíso marítimo. Dizias que não havia nada melhor, que passavas o tempo todo ali, comigo porque havia naqueles momentos uma sensação de liberdade, de eternidade. Mas, de repente, passas os dias no hospital sem mim, só com a extrema sensação de mortalidade e de fogos apagados. Os fumos inundam-te a alma e o quarto, fundem-te mais. Não me deixam ver-te, porque têm medo que me assuste com a tua figura mortal, como já não tivesse eu visto de todas as formas e tamanhos. Eles pensam que de ti já não sei tudo. Enganam-se tão bem. Mesmo antes de encontrar o teu quarto pela primeira vez, já sabia como te ia encontrar. Ias estar a olhar para a parede e para a janela, as duas ao mesmo tempo, sem olhares para nenhuma. Os teus olhos seriam o vidro de cristal apagados, tão apagados, pela extrema noção que o tempo passa. Também nunca gostaste do tempo, falavas muito dele, mas não gostavas dele. Não o aprendias a amar. E, foste-me ensinando isso. Só agora me apercebo que só amava o tempo sempre que te ia ver ao hospital, o resto das horas eram passadas. Libertadas e consumidas por horas e segundos que não se ligavam a mim. Contagiaste-me isso. Aliás contagiaste-me outras tantas coisas. Quando entrei pela primeira vez no teu quarto, encontrando-te exactamente da mesma maneira que sabia te encontrar, contagiaste-me a tua dor. Os teus braços estavam lascados de cicatrizes e tubos, e seringas, de todos os tamanhos e formas. Tive tanta pena. Percebeste isso – inacreditável como percebias sempre – e estendeste-me a mão para te abraçar a única coisa que vai sempre minha. A tua mão, o teu apoio firme, a tua forma calma e segura de te dares a mim. É-me proibido beijar-te os lábios, aliás beijar-te onde quer que seja, mas estes anos já me dão autorização para tudo. Sento-me na tua cama. Felizmente arranjaram-te um quarto só para ti. Não creio que conseguisses aguentar isto tudo com alguém ao teu lado, ou a queixar-se ou a falar-te de outra coisa qualquer. Não és, nunca foste de grandes falas. Sento-me na tua cama, e enquanto a tua voz não se solta, olho para a janela. A vista não é nada de mais, correm os pássaros do outro lado, as nuvens amam-se, as montanhas curvam-se. A vista não é nada de mais. Mas, se olhar para ti, se virar a cabeça mais um bocadinho, reparo na melhor vista do mundo; tu. Dou-te um beijinho no pescoço, e deixo-me permanecer no teu peito, reages ao perfume do meu champô e abraças-me. Acordas dum sono eterno que já te começa a dominar. Foi esta a primeira vez, de muitas, que estive horas no teu braço a esperar que a enfermeira viesse com a injecção para te fazer dormir. E, esperando depois que acordasses para jantar contigo e me ir embora até o horário das visitas acabar. Naquele dia, perguntas-me que se passa, digo-te que vou deixar de escrever. Pedes-me que não o faça. Não sei se agora, que estás algures por aí, percebes o porque de te querer deixar de escrever. Cada pessoa tem a sua melodia, tu eras o meu instrumento. Sem ti, zomba tudo, num mar empestado de tubarões e serpentes gigantes. Sem ti, devoram-me. E custa, custa muito. Escrever, para ti, é a única coisa que às vezes me mantém vivo. Que nos mantém vivos. Quando dormias na tua cama articulada, escrevia para ti, às vezes detalhava até o teu sono, a maneira como as tua pestanas se moviam. Às vezes falavas o meu nome, e só por ti todas as minhas palavras deixavam de fazer sentido. Tens esse poder, o poder de tirar o melhor de mim. Tinhas esse poder, ainda o tens. Naquele dia, já não me lembro ao certo em que dia foi - dizes á enfermeira para não te dar a injecção que hoje tinhas assuntos sérios a tratar. Ela deixa, entusiasmada pelo facto de durante uma semana lhe teres dirigido a palavra. Eu sou o teu assunto sério; mesmo quando brincavas comigo, quando me atiravas almofadas e me tentavas afogar na tua piscina, eu sabia que era o teu assunto sério. Fazias tudo sempre da maneira mais séria possível. Acertavas-me sempre com as almofadas de uma maneira querida, e quando me tentavas afogar, as tuas mãos percorriam-me com um carinho tudo menos de assassina. Sempre fui o teu assunto sério; e tu sempre foste a minha palavra mais séria. Sentas-te na cama, pões-me a mão na cara; os olhos na minha alma. «Faz de mim o teu caderno.» Rio-me para ti, e peço-te para te deitares de costas, dou-te um beijinho nelas e com os dedos escrevo-te o mais certo segredo que um dia me disseste, sem o saber; «Lembra-te que em todos os dias eu amo-te. Em todos esses dias eu quero mais que tudo isto resulte, que cresça. Porque cada um destes dias são uma sequência de momentos altos e baixos que são no fundo, o desenrolar da nossa história.»

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