segunda-feira, 5 de março de 2012

recordações

O valor das, das pequenas coisas, é traduzido pela espontaneidade dos gestos, pelo carinho de dar, pela alegria que transborda do coração quando o prazer da oferta se equipara ao prazer do recebimento. É assim o amor. Um beijo na testa quando a manhã aparece no céu e ainda dormes; um sorriso quando a luz do olhar retém o teu reflexo; o prazer de sentir o teu respirar sereno sobre a minha pele. A erupção vulcânica do teu calor sobre os lençóis é já um motivo de felicidade! Tudo coisas de dentro, coisas da alma, coisas de mim. Promessas escritas na areia da praia, quando prometi ao mar e aos céus que te amaria pela eternidade do tempo, não fosse o tempo o limite de nós. Um dia ao ouvir o trompete da marcha anunciar a tua passagem festiva pela nossa rua, corri para abrir a janela… A porta caiu e estilhaçou-se no chão! Das outras janelas saltavam cordões de pétalas de flores e braços abertos acolhiam a passagem da música que enchia o ar e os ouvidos. Peguei nas nossas rosas e reparei que estavam murchas… Ainda lancei as pétalas secas na esperança de que se florissem, mas o vento levou-as para onde não perturbasse o sorriso de ninguém. Era apenas uma flor sem importância e os céus não me responderam. Limitaram-se a deixar escapar uma lágrima ácida sobre a pele e a queimarem a fantasia. Só queria entender… Talvez nada tenha sido importante… Pelas ruas frias um trovão ansiava explodir-me no cérebro, agitar a consciência, como uma mão que nos quisesse trazer à realidade. Tentei desviar-me quanto pude, convicto de que me iria ferir, mas foi impossível. Quando acordei uma enorme gargalhada surtiu aos meus ouvidos. Uma voz… A tua voz…! Numa outra cama gozavas prazeres nos braços de um outro qualquer, que perguntava por mim e ria, ria, e ria… “Ele também é assim”?! O delírio do prazer mais bonito florido no teu corpo disposto e aberto em flor num canteiro perfumado e sonhos. Não era eu o jardineiro. Descobri que nem tinha jardim. Tão pouco sei semear alguma coisa. Mas vi o teu rosto feliz entregue ao prazer como se voasse e fosse livre, como se aquele momento representasse a evasão total! Dentro de ti uma esperança de libertação, como se te quisesses despir de mim, rugias como um leoa. Seres livre é um direito. Apenas consegui libertar uma lágrima ácida sobre a pele e queimar a fantasia… Só queria entender… Talvez nada tenha sido importante… Sopro o pó da capa do caminho. Uma história como tantas outras histórias que preencheram a vida de tantas outras personagens. Esta foi apenas mais uma. A cola está fresca, a fotografia é recente, pode desbotar… Uma história. Levantei a cabeça e descobri que não conseguia chorar. Chorar é típico dos fracos e eu não chorei. Nem quando te vi cheia de esperanças cruzares a porta destruída da casa sem vida, deixando para trás… Espera… O que ficava para trás? Nada! Apenas, e só, pequenas coisas… Deixa, não têm mais valor que o facto de serem pequenas coisas. Qualquer coisa vale mais que todo o nada. Ah! Esqueci-me do amor… Esqueci-me porque não foi assim tão importante... O amor é uma palavra como tantas outras no dicionario de qualquer língua, com tantos sinónimos quantos os que lhe quisermos atribuir. Quando o meu coração dizia que te amava, falava por ele, pela alegria de assistir ao teu acordar. Mas o amor pode ser qualquer coisa… Um desejo de momento, uma necessidade, uma expressão para nos convencermos de que amamos mesmo. Talvez não seja assim tão importante… Os pedaços da manta estão acampados na piscina da mágoa e divertem-se, mais uma vez. Sentado numa cadeira de praia assisto e aplaudo. Ai se eu fosse jardineiro e conseguisse esquecer e arrancar todos os cactos da vida! Que culpa têm as pobres flores se gosto de me rebolar em cima delas? Talvez devesse arrancar todo o amor do mundo! Ficaria o quê? A pedra glaciar que se deita comigo passaria a ser um Pólo Norte hibernado no mundo, numa fase doentia, num delírio assustador. Há paixões que vivem das pequenas coisas e são felizes. Não são todas… Mas ainda bem, porque assim há espaço para a dor. Se não houvesse dor, sobre que escreveriam os poetas? Agora agacho-me e tento apanhar os cacos da ilusão. Quanto sobrou desta vez? Talvez dê para fazer um soneto… Talvez sim… Promessas da lua, quando prognosticou diante do mar e dos céus que me feriria pela eternidade de um lamento… Como somos dois tolos… Esperem! Isto parece-me a marcha… Deixem-me espreitar pela janela partida! Que felizes que os amantes estão…! Como estou feliz por eles

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