quinta-feira, 8 de março de 2012

look into my eyes

No cimo da igreja os sinos batem a hora certa. Assim junta-se gente em falatório. Aos meus olhos muita coisa. aos meus ouvidos as vozes passeiam em círculo. Os pés alinhados pelas conversas arrastam-se, as conversas são feitas de palavras quem pode confiar nas palavras que caem de bocas agitadas pelo ir e vir de um sino que nunca saiu do alto daquela torre. há uma multidão anunciada desde o dia em que o padre da paróquia lançou a água benta na primeira pedra. Na multidão há sempre o ruído das palavras são muitas e as mais parvas perdem-se no ar como balões. São empurradas pelo som dos sinos. sobem ao céu. para sempre, outras procuram os ouvidos que não encontram e os corpos estão em festa, é a vida. Desesperadas caem por terra, moribundas, cansadas da procura simplesmente calam-se. Há palavras que não nasceram para serem ouvidas existe sempre a opção do silêncio. Os foguetes estoiram. os corpos dançam. a multidão eufórica abraça-se em palavras-gesto, sem boca, sem lábio e sem som. Sem uma única corda vocal e aquele silêncio-ruído continua abafado pelo toque da banda de música. quarenta músicos. Quarenta instrumentos e nestes uns pratos redondos em ouro fingido que quando batem um contra o outro parecem anunciar uma tempestade. .
Silêncio. tudo se resume ao silêncio das palavras. Se escrevo falo para mim. as palavras nascem-me no corpo eu ouço-as como uma nascente de água pura. Tudo que é novo é puro. O pecado precisa de tempo para parar o silêncio. Todas as palavras são limpas ao nascer. Só na boca ganha som. só ao vento é que elas se tornam defeito como um pássaro parte numa busca do ouvido talvez Abrigo, talvez acolhimento. Amigo? prostituta? bondade? não entendo nada de palavras, tenho dias em que sou mudo e como nos filmes mudos só o gesto do corpo, do olhar, do piano que não se vê e corre atrás das personagem em gritos que imagino como é fácil contrafazer som dos lábios com uma palavra. Gostava de ser a palavra para sempre, mesmo que fosse só em lábios contrafeitos, sou mudo há tanto tempo, à boca as palavras cansadas reclamam o seu descanso, eu preciso de mergulhar a palavra-corpo numa banheira de água quente.

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