terça-feira, 28 de junho de 2011

A carta que eu nunca te escrevi


Esta é a carta que nunca te enviei.
A carta que esteve guardada na gaveta, que esteve escondida até de mim.
Estas são as palavras que nunca leste apesar de te estarem destinadas, apesar de te estarem escritas há tanto e tanto tempo…
“Nem sei como começar.
Eu, que sempre tive as palavras na ponta da língua e dos dedos, nem sei como começar. Estranho para mim esta sensação de não conseguir verbalizar aquilo tudo o que se sente. Estranho o facto de me encheres de tanto que me faltam as letras. Tento escrever, aqui e agora, as palavras que não saem quando estou contigo. Tento formar palavras coerentes para tudo aquilo que me invade de forma tão incoerente. É impossível, pelo menos para mim, descrever aquele sentido tão próprio que uma despedida faz invadir por todo o meu ser. É como se a saudade fosse possível estando tu ainda junto de mim. Não sais da ideia de um forma tão intensa, tão própria, tão única, que dou por mim de olhar vagueante pelo que me rodeia não vendo nada que não seja a tua imagem gravada na retina. E quando estou contigo, dou por mim a olhar-te no fundo dos olhos, procurando um sentido, uma ideia do que sou de mim, daquilo que me fazes ser, porque me fazes sentir diferente.
A noite ficou diferente, o som do mar ficou mais manso, a areia com que brinco por entre os dedos mais branca, as estrelas brilharam de forma mais intensa, porque cada vez que as olho, me recordo do doce toque acetinado dos teus lábios enquanto a ponta dos dedos te percorria a pele da face. Consigo ainda desenhar-te de olhos fechados quando à noite me sento no chão, ao escuro e me deixo embalar pelas doces recordações dos breves momentos em que estivemos presentes face a face. Há momentos únicos na vida e tu deste-me um, tão belo e intenso, que não há palavras, tela ou fotografia que o conseguisse imortalizar como eu imortalizei os sentidos. Sinto ainda o corpo vibrante, a voz melodiosa, o sorriso com que me brindaste. Sinto-te ainda comigo, como se estivesses aqui, agora, pegando-me no braço e deixando-te encostar no meu ombro.
São as recordações destes momentos que me vão levando, me fazem andar mais um pouco, me fazem lutar por mais. São esses momentos que me fazem querer-te mais ainda.
E por aqui me fico, nesse doce sentir das recordações, no doce sonho de querer mais, mais sentires, mais recordações, mais de ti.”

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